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e. e. cummings

O SWEET SPONTANEOUS earth how often have the doting                fingers of prurient philosophers pinched and poked   thee ,has the naughty thumb of science prodded thy           beauty      how often have religions taken thee upon their scraggy knees squeezing and   buffeting thee that thou mightest conceive gods          (but true   to the incomparable couch of death thy rhythmic lover                thou answerest     them only with                                 spring)   ///

Mary Oliver

WILD GEESE You do not have to be good. You do not have to walk on your knees for a hundred miles through the desert, repenting. You only have to let the soft animal of your body love what it loves. Tell me about despair, yours, and I will tell you mine. Meanwhile the world goes on. Meanwhile the sun and the clear pebbles of the rain are moving across the landscapes, over the prairies and the deep trees, the mountains and the rivers. Meanwhile the wild geese, high in the clean blue air, are heading home again. Whoever you are, no matter how lonely, the world offers itself to your imagination, calls to you like the wild geese, harsh and exciting– over and over announcing your place in the family of things. ///

Agostinho Neto

CONFIANÇA O oceano separou-me de mim enquanto me fui esquecendo nos séculos e eis-me presente reunindo em mim o espaço condensando o tempo. Na minha história  existe o paradoxo do homem disperso Enquanto o sorriso brilhava no canto da dor e as mãos construíam mundos maravilhosos John foi linchado o irmão chicoteado nas costas nuas a mulher amordaçada e o filho continuou ignorante E do drama intenso duma vida imensa e útil resultou certeza As minhas mãos colocaram pedras nos alicerces do mundo mereço o meu pedaço de pão ///

Herberto Helder

NÃO SEI COMO DIZER-TE que minha voz te procura e a atenção começa a florir, quando sucede a noite esplêndida e vasta. Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos se enchem de um brilho precioso e estremeces como um pensamento chegado. Quando, iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado pelo pressentir de um tempo distante, e na terra crescida os homens entoam a vindima — eu não sei como dizer-te que cem ideias, dentro de mim, te procuram.   Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros ao lado do espaço e o coração é uma semente inventada em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia, tu arrebatas os caminhos da minha solidão como se toda a casa ardesse pousada na noite. — E então não sei o que dizer junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio. Quando as crianças acordam nas luas espantadas que às vezes se despenham no meio do tempo — não sei como dizer-te que a pureza, dentro de mim, te procura.   Durante a primavera inteira aprendo os trevos, a água...

Carlos Drummond de Andrade

UM BOI VÊ OS HOMENS Tão delicados (mais que um arbusto) e correm e correm de um para o outro lado, sempre esquecidos de alguma coisa. Certamente falta-lhes não sei que atributo essencial, posto se apresentem nobres e graves, por vezes. Ah, espantosamente graves, até sinistros. Coitados, dir-se-ia que não escutam nem o canto do ar nem os segredos do feno, como também parecem não enxergar o que é visível e comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristes e no rasto da tristeza chegam à crueldade. Toda a expressão deles mora nos olhos - e perde-se a um simples baixar de cílios, a uma sombra. Nada nos pêlos, nos extremos de inconcebível fragilidade, e como neles há pouca montanha, e que secura e que reentrâncias e que impossibilidade de se organizarem em formas calmas, permanentes e necessárias. Têm, talvez, certa graça melancólica (um minuto) e com isto se fazem perdoar a agitação incômoda e o translúcido vazio interior que os torna tão pobres e carecidos de emitir sons absurdos e agôni...

Sophia de Mello Breyner Andresen

ÍTACA Quando as luzes da noite se reflectirem imóveis nas águas verdes de Brindisi Deixarás o cais confuso onde se agitam palavras passos remos e guindastes A alegria estará em ti acesa como um fruto Irás à proa entre os negrumes da noite Sem nenhum vento sem nenhuma brisa só um sussurar de búzio no silêncio Mas pelo súbito balanço pressentirás os cabos Quando o barco rolar na escuridão fechada Estarás perdida no interior da noite no respirar do mar Porque esta é a vigília de um segundo nascimento O sol rente ao mar te acordará no intenso azul Subirás devagar como os ressuscitados Terás recuperado o teu selo a tua sabedoria inicial Emergirás confirmada e reunida Espantada e jovem como as estátuas arcaicas Com os gestos enrolados ainda nas dobras do teu manto ///

Wallace Stevens

THE POEMS OF OUR CLIMATE I Clear water in a brilliant bowl, Pink and white carnations. The light In the room more like a snowy air, Reflecting snow. A newly-fallen snow At the end of winter when afternoons return. Pink and white carnations – one desires So much more than that. The day itself Is simplified: a bowl of white, Cold,  a cold porcelain , low and round, With nothing more than the carnations there. II Say even that this complete simplicity Stripped one of all one’s torments, concealed The evilly compounded, vital I And made it fresh in a world of white, A world of clear water, brilliant-edged, Still one would want more, one would need more, More than a world of white and snowy scents. III There would still remain the never-resting mind, So that one would want to escape, come back To what had been so long composed. The imperfect is our paradise. Note that, in this bitterness, delight, Since the imperfect is so hot in us, Lies in flawed words and stubborn sounds. ////