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Mostrando postagens de outubro, 2022

Pedro Nava

A MEMÓRIA DOS QUE ENVELHECEM (e que transmite aos filhos, aos sobrinhos, aos netos, a lembrança dos pequenos fatos que tecem a vida de cada indivíduo e do grupo com que ele estabelece contatos, correlações, aproximações, antagonismos, afeições, repulsas e ódios) é o elemento básico na construção da tradição familiar. Esse folclore jorra e vai vivendo do contato do moço com o velho — porque só este sabe que existiu em determinada ocasião o indivíduo cujo conhecimento pessoal não valia nada, mas cuja evocação é uma esmagadora oportunidade poética. Só o velho sabe daquele vizinho de sua avó, há muita coisa mineral dos cemitérios, sem lembrança nos outros e sem rastro na terra — mas que ele pode suscitar de repente (com o mágico que abre a caixa dos mistérios) na cor dos bigodes, no corte do paletó, na morrinha do fumo, no ranger das botinas de elástico, no andar, no pigarro, no jeito — para o menino que está escutando e vai prolongar por mais cinqüenta, mais sessenta anos a lembrança que ...

João Cabral de Melo Neto

A ESTRADA DA RIBEIRA Como aceitara ir no meu destino de mar, preferi essa estrada, para lá chegar, que dizem da ribeira e à costa vai dar, que deste mar de cinza vai a um mar de mar; preferi essa estrada de muito dobrar, estrada bem segura que não tem errar pois é a que toda a gente costuma tomar (na gente que regressa sente-se cheiro de mar). ////

Manuel António Pina

AS COISAS Há em todas as coisas uma mais-que-coisa fitando-nos como se dissesse: “Sou eu”, algo que já lá não está ou se perdeu antes da coisa, e essa perda é que é a coisa. Em certas tardes altas, absolutas, quando o mundo por fim nos recebe como se também nós fôssemos mundo, a nossa própria ausência é uma coisa. Então acorda a casa e os livros imaginam-nos do tamanho da sua solidão. Também nós tivemos um nome mas, se alguma vez o ouvimos, não o reconhecemos. //// in "Todas as Palavras"

Carlos Drummond de Andrade

HOTEL TOFFOLO E vieram dizer-nos que não havia jantar. Como se não houvesse outras fomes e outros alimentos. Como se a cidade não nos servisse o seu pão de nuvens. Não, hoteleiro, nosso repasto é interior e só pretendemos a mesa. Comeríamos a mesa, se no-lo ordenassem as Escrituras. Tudo se come, tudo se comunica, tudo, no coração, é ceia. ////

Álvaro de Campos

ANIVERSÁRIO No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,  Eu era feliz e ninguém estava morto.  Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,  E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.  No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,  Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,  De ser inteligente para entre a família,  E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.  Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.  Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida. Sim, o que fui de suposto a mim mesmo, O que fui de coração e parentesco, O que fui de serões de meia-província, O que fui de amarem-me e eu ser menino.  O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...  A que distância!...  (Nem o acho...)  O tempo em que festejavam o dia dos meus anos! O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,  Pondo g...

Alberto Caeiro

NOITE DE SÃO JOÃO Noite de S. João para além do muro do meu quintal. Do lado de cá, eu sem noite de S. João. Porque há S. João onde o festejam. Para mim há uma sombra de luz de fogueiras na noite, Um ruído de gargalhadas, os baques dos saltos. E um grito casual de quem não sabe que eu existo. ////

Adélia Prado

CASAMENTO Há mulheres que dizem: Meu marido, se quiser pescar, pesque,  mas que limpe os peixes. Eu não. A qualquer hora da noite me levanto, ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar. É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha, de vez em quando os cotovelos se esbarram, ele fala coisas como 'este foi difícil' 'prateou no ar dando rabanadas' e faz o gesto com a mão. O silêncio de quando nos vimos a primeira vez atravessa a cozinha como um rio profundo. Por fim, os peixes na travessa, vamos dormir. Coisas prateadas espocam: somos noivo e noiva. ////

Emily Dickinson

I COULD BRING YOU JEWELS had I a mind to But You have enough of those I could bring You Odors from St. Domingo Colors from Vera Cruz Berries of the Bahamas have I But this little Blaze Flickering to itself in the Meadow Suits Me more than those Never a Fellow matched this Topaz And his Emerald Swing Dower itself for Bobadilo Better Could I bring? ////

W.H. Auden

STOP ALL THE CLOCKS, cut off the telephone, Prevent the dog from barking with a juicy bone, Silence the pianos and with muffled drum Bring out the coffin, let the mourners come. Let aeroplanes circle moaning overhead Scribbling on the sky the message ‘He is Dead’. Put crepe bows round the white necks of the public doves, Let the traffic policemen wear black cotton gloves. He was my North, my South, my East and West, My working week and my Sunday rest, My noon, my midnight, my talk, my song; I thought that love would last forever: I was wrong. The stars are not wanted now; put out every one, Pack up the moon and dismantle the sun, Pour away the ocean and sweep up the wood; For nothing now can ever come to any good. ////

J.M.G. Le Clézio (mudado para português por Herberto Helder)

UM POEMA (INIJI) QUE NÃO É COMO OS OUTROS          Interrogamo-nos acerca da poesia? Desejaríamos saber o que pretende ela, aquilo que pretende de nós. É que muitas vezes não nos diz nada. Palavras, fragmentos de frases, balanceadas, hesitantes, versáteis, palavras que não conseguimos reter.         Estribilhos de canções, talvez? Mas então onde está a música? Talvez músicas silenciosas, tocadas no fundo da água, a cem braças de profundidade.         Os outros poemas, todos os poemas célebres, organizados, compostos, exércitos em armas que marcham a passo certo. Não estamos lá quando passam. Viramos a cara, vamos procurar noutro lado. Em geral, quando passavam, esses grandes poemas, havia um extremo vazio, um intenso vazio (o medo, o cansaço), e era a ele que preferíamos.         Ou ainda outros poemas, que falavam de coisas grandes, insultavam, blasfemavam. Faziam um grande barulho ...

Millôr Fernandes

ESTIO Houve um tempo em que havia um andar de cima e um porão. Houve um tempo em que o som de um amolador entorpecia a tarde. Havia uma moringa na janela, refrescando a água. Sempre, a qualquer momento, alguém ainda dormia, nas desencontradas horas da família. Na tarde estorricante do verão, uma cachorra chamada Teteca levantava a cabeça de vez em quando, num piso de cimento embaixo da mangueira, na única sombra do quintal ensolarado, e dava para o alto três latidos lancinantes de protesto. Acho que para Deus. Acho que havia Deus. ////

Vladimir Holan

RESSURECTION Is it true that after this life of ours we shall one day be awakened by a terrifying clamour of trumpets? Forgive me God, but I console myself that the beginning and resurrection of all of us dead will simply be announced by the crowing of the cock. After that we’ll remain lying down a while… The first to get up will be Mother… We’ll hear her quietly laying the fire, quietly putting the kettle on the stove and cosily taking the teapot out of the cupboard. We’ll be home once more. ////

Sophia de Mello Breyner Andresen

CAMINHO DA MANHÃ Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas. Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas, até encontrares em frente do mar uma grande praça quadrada e clara que tem no centro uma estátua. Segue entre as casas e o mar até ao mercado que fica depois de uma alta parede amarela. Aí deves parar e olhar um instante para o largo pois ali o visível se vê até ao fim. E olha bem o branco, o puro branco, o branco da cal onde a luz cai a direito. Também ali entre a cidade e a água não encontrarás nenhuma sombra; abriga-te p...

e.e.cummings

SPRING IS LIKE A PERHAPS HAND (which comes carefully out of Nowhere)arranging a window,into which people look(while people stare arranging and changing placing carefully there a strange thing and a known thing here)and changing everything carefully spring is like a perhaps Hand in a window (carefully to and fro moving New and Old things,while people stare carefully moving a perhaps fraction of flower here placing an inch of air there)and without breaking anything. e.e. cummings /////

Edwin Denby

DAILY LIFE IS wonderfully full of things to see. Not only people’s movements, but the objects around them, the shape of the rooms they live in, the ornaments architects make around windows and doors, the peculiar ways buildings end in the air, the water tanks, the fantastic differences in their street facades on the first floor. … [I]f you start looking at New York architecture, you will notice not only the sometimes extraordinary delicacy of the window framings, but also the standpipes, the grandiose plaques of granite and marble on the ground floors of office buildings, the windowless side walls, the careful, though senseless, marble ornaments. And then the masses, the way the office and factory buildings pile up together in perspective. And under them the drive of traffic, those brilliantly colored trucks with their fanciful lettering, the violent paint on cars, signs, houses as well as lips. Sunsets turn the red-painted houses in the cross streets to the flush of live rose petals. ...

Walt Whitman

SONG OF MYSELF 1 I celebrate myself, and sing myself, And what I assume you shall assume, For every atom belonging to me as good belongs to you. I loafe and invite my soul, I lean and loafe at my ease observing a spear of summer grass. My tongue, every atom of my blood, form’d from this soil, this air, Born here of parents born here from parents the same, and their parents the same, I, now thirty-seven years old in perfect health begin, Hoping to cease not till death. Creeds and schools in abeyance, Retiring back a while sufficed at what they are, but never forgotten, I harbor for good or bad, I permit to speak at every hazard, Nature without check with original energy. 2 Houses and rooms are full of perfumes, the shelves are crowded with perfumes, I breathe the fragrance myself and know it and like it, The distillation would intoxicate me also, but I shall not let it. The atmosphere is not a perfume, it has no taste of the distillation, it is odorless, It is for my mouth forever, I am...

Marguerite Young

THERE WILL BE ON THE BRANCH of the wild, wet cherry Not the vexed bloom but calm leaves of early Saints where the velvet shadows lengthen In orchards shuttered from moon and sun; Those fibrous hearts will be unspun Like silken webs on breathless air Gleaming among globules of the green pear. Dim leaves of seraphim, Gold flood of flesh gone dim, Will drift above the azure dust Of eyelids closed like wildest Starlings startled swept by storm; There will be no one whose blood is warm. Marguerite Young //// You come to this old village by a ferry Which wheezes and trembles in a spasm, But the iron clapper by the river clearly Has called the fisherman across the chasm. Marguerite Young ////