Millôr Fernandes




ESTIO

Houve um tempo em que havia um andar de cima e um porão. Houve um tempo em que o som de um amolador entorpecia a tarde. Havia uma moringa na janela, refrescando a água. Sempre, a qualquer momento, alguém ainda dormia, nas desencontradas horas da família. Na tarde estorricante do verão, uma cachorra chamada Teteca levantava a cabeça de vez em quando, num piso de cimento embaixo da mangueira, na única sombra do quintal ensolarado, e dava para o alto três latidos lancinantes de protesto. Acho que para Deus. Acho que havia Deus.

////